"E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão..."

22
Set 11

 

 

Todos os que tinham a Alma ausente

Estavam fechados num hospício distante

Situado entre o díspar e o semelhante

Num lugar nem muito frio nem muito quente.

 

E tinham um ar de tal modo diferente

Que alguns diziam com atitude confiante

Serem de origem galáctica e mutante

E não verdadeiramente gente.

 

Pobres de Alma destituídos

Vagueavam como andróides perdidos

Sem inicio, nem fim.

 

Alguns contemplavam o infinito,

Iam soltando um pequeno grito

E sorriam de vez em quando para mim.

 

(Lígia, 1 de Maio 2009)

 

publicado por Lígia Laginha às 09:43
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12
Set 11

 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

 

(Florbela Espanca)


publicado por Lígia Laginha às 09:43

09
Set 11

                                           

 

                                               A Mário de Sá-Carneiro

 

Quando eu morrer soltem gargalhadas

E batam palmas sem parar.

Que se façam os sinos tocar

Mas em desconexas badaladas.

 

Que se contem anedotas apimentadas

E se faça chacota do meu ar.

Sobre o caixão ponham licor para eu tomar

E algumas mortalhas para serem fumadas.

 

Quando eu morrer digam nomes ordinários

E façam os outros de otários

Rebolando no chão sempre a rir.

 

Quando eu morrer rebentem balões

Dêem pinotes e trambolhões

E fiquem com nódoas negras de tanto cair.

 

(Lígia, 24 de Abril 2009)


 

publicado por Lígia Laginha às 14:00
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Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

 

(Antero de Quental)

 

publicado por Lígia Laginha às 11:40

08
Set 11

 

Numa senzala imunda

Carpem os escravos da vida

Entregues à droga e à bebida

Para enganar a Dor profunda.

 

Munidos de uma vontade corcunda

Tentam fugir desta sina bandida

Mas cada dia é uma batalha perdida

Para o vício que os aprisiona e afunda.

 

Os seus corpos carregam uma Alma doente

E andam no Mundo fingindo ser gente

Mas não passam de farrapos sem postura.

 

No passado todos deixaram aquela história

Pejada de lágrimas e sem glória

Que os conduziu à escravatura.

 

(Lígia, 16 de Julho de 2009)


publicado por Lígia Laginha às 14:14
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A existência é um lugar

Que sobejamente se visita

E apesar da sorte ou desdita

Acabamos sempre por lá voltar.

 

Nela podemos aprender a amar

Mas o ódio também ninguém evita

E entre a paz calma e o que nos irrita

Vai um passo que se dá sem andar.

 

Saber existir é uma meta humana

Mas a superfície nunca é plana

E muitos acabam por cair.

 

Estes limitam-se depois a sobreviver

E como eles acabamos por não entender

Qual a melhor forma de encarar o devir.

 

(Lígia, 19 de Julho de 2010)

 

publicado por Lígia Laginha às 07:12
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06
Set 11

 

No país onde não há Felicidade

Habita também o meu coração,

Cerrado na profunda escuridão

Pois aflige-o a claridade.

 

Um dia tomou a liberdade

De se oferecer à paixão

Mas foi tão grande a desilusão

Que o votou a esta triste realidade.

 

Desta moradia de sombras e medo

Fez o seu doce degredo

E vai carpindo a Dor do abandono.

 

Por vezes, ainda se entrega a Morfeu

E idealiza um beijo teu

Nos alvores do funéreo sono.

 

(Lígia, 31 de Agosto 2009)

publicado por Lígia Laginha às 12:03
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