"E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão..."

07
Set 11
                                                                                                                                                                                       Cemitério da minha terra,

 

Paredes a branquejar;

 

Que bom será lá dormir

 

Um bom sonho sem sonhar!...

 

 

De manhã, muito cedinho

 

Dormir de leve, embalada

 

P´las canções das raparigas

 

Que gentis passam na ´strada.

 

 

Cantem mais devagarinho,

 

Mais baixinho camponesas,

 

Que os vossos cantos pareçam

 

Tristes preces, doces rezas...

 

 

À noitinha, ao sol posto

 

Ouvindo as Ave-Marias!

 

Meu Deus, que suavidade!

 

Que paz de todos os dias!

 

 

Os murmúrios dos ciprestes

 

São doces canções aladas

 

Serenatas de paixão

 

Às almas enamoradas!

 

 

O luar imaculado

 

Em noites puras, serenas,

 

É um rio, que vai fazendo

 

Florir as açuçenas...

 

 

Canta triste o rouxinol

 

Beijam-se lindos uns goivos,

 

E no fundo duma campa

 

Dormem felizes uns noivos...

 

 

Dum túmulo a outro se fala:

 

"Porque morreste tão nova?

 

Porque tão cedo vieste

 

Dormir numa fria cova?"

 

 

"Eu era infeliz na terra,

 

Ninguém me compreendia,

 

Quando a minh ´alma chorava

 

Todos pensavam que eu ria..."

 

 

"E tu triste e tão linda

 

Com olhos de quem chorou?"

 

"Eu tive um amor na vida

 

Que por outra me deixou!"

 

 

"E tu?" "Sozinha no mundo

 

Nunca tive o que outros têm:

 

Pai, mãe ou um namorado...

 

Morri por não ter ninguém!..."

 

 

Uma diz: "Chorava um filho

 

Que é uma dor sem piedade",

 

Outra diz num vago enleio:

 

"Eu cá, morri de saudade!"

 

 

De todas as campas sai

 

Um choro que é um mistério

 

É então que os vivos sentem

 

As vozes do cemitério...

 

 

... Vão-se calando os soluços...

 

E as pobres mortas de dor

 

Vão dormindo, acalentando

 

Uns sonhos brancos d´amor...

 

 

Invejo estes doces sonhos

 

Neste terreno funéreo.

 

Ai quem me dera dormir

 

No meu lindo cemitério!

 

(Florbela Espanca, 10 de Março 1913)
publicado por Lígia Laginha às 13:56

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