"E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão..."

25
Set 11

publicado por Lígia Laginha às 00:08

23
Set 11

 

Vociferava mas em tom pouco agressivo,

Afinal era anjo e devia ser passivo.

Mas a sua fraqueza era ser alterado.

Não tinha a pachorra que ser anjo requer,

Daí que um dia Lúcifer

Fosse expulso para outro lado.

 

Antes de partir ainda acenou

Mas dos seus “irmãos” nem um só o olhou.

Lá ia sem saber se estava triste ou contente.

Apenas esquizofrénico como era,

Não sabia porque para ali viera,

E agora sentia que podia finalmente ser diferente.

 

A sua realidade não era aquela,

Mas seria a que o esperava mais bela?

Caminhou a medo

E durante o caminho nunca olhou para trás.

Pensava “Seja para onde for que vás,

Isso ainda é um segredo”.

 

No final da travessia viu algo a brilhar,

Eram doces fogueiras a crepitar.

Sentiu um odor qualquer no ar,

E uma certeza no coração:

Perdera de anjo a condição,

Mas ali sim era o seu lugar.

 

(Lígia)


publicado por Lígia Laginha às 06:57
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22
Set 11

 

 

Todos os que tinham a Alma ausente

Estavam fechados num hospício distante

Situado entre o díspar e o semelhante

Num lugar nem muito frio nem muito quente.

 

E tinham um ar de tal modo diferente

Que alguns diziam com atitude confiante

Serem de origem galáctica e mutante

E não verdadeiramente gente.

 

Pobres de Alma destituídos

Vagueavam como andróides perdidos

Sem inicio, nem fim.

 

Alguns contemplavam o infinito,

Iam soltando um pequeno grito

E sorriam de vez em quando para mim.

 

(Lígia, 1 de Maio 2009)

 

publicado por Lígia Laginha às 09:43
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18
Set 11

 

No derradeiro minuto tirava do rosto

Toda a tinta que lhe havia posto

Para garantir a alegria.

Despia as roupas garridas

Que tinham de ser vestidas

Apesar da sua agonia.

 

Sabia que era palhaço

Tendo por isso de usar laço,

Grandes sapatos e um nariz encarnado.

Mas como lhe era difícil sorrir

Quando afinal tudo o que conseguia sentir

Era aquela Angústia que o trazia amargurado.

 

Quando se encontrava muito sozinho

Pintava na face um triste sorrisinho

E algumas lágrimas prateadas.

Era então que chorava

E com arte misturava

Soluços e gargalhadas.

 

(Lígia, 2 de Março de 2009)

 

publicado por Lígia Laginha às 08:49
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15
Set 11
                                                                                                                                                                                     
Um pouco mais de sol - eu era brasa, 
Um pouco mais de azul - eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num baixo mar enganador de espuma; 
E o grande sonho despertado em bruma, 
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido... 

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim - quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão! 

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... - 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou... 

Momentos d'alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar... 
Rios que perdi sem os levar ao mar... 
Ansias que foram mas que não fixei... 

Se me vagueio, encontro só indicios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; 
E mãos de herói, sem fé, acobardadas, 
Puseram grades sôbre os precipícios... 

Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Um pouco mais de sol - e fôra brasa, 
Um pouco mais de azul - e fôra além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de aza... 
Se ao menos eu permanecesse àquem...
                                                                                                                                                                                                   
Mário de Sá - Carneiro)
publicado por Lígia Laginha às 11:21

13
Set 11

 

Todo o amor que nos prendera,

 

como se fôra de cera

 

Se quebrava e desfazia.

 

:Ai funesta primavera

 

quem me dera quem nos dera

 

ter morrido nesse dia.:

 

 

 

E condenaram-me a tanto

 

viver comigo o meu pranto

 

viver, viver e sem ti

 

:Vivendo sem no entanto

 

eu me equecer desse encanto

 

que nesse dia perdi.:

 

 

 

Pão duro da solidão

 

é somente o que nos dão,

 

o que nos dão a comer.

 

Que importa que o coração

 

diga que sim ou que não,

 

se continua a viver.

 

 

 

Todo o amor q nos prendera

 

se quebrara e desifzera

 

em pavor se convertia

 

Ninguem fale em primavera

 

quem me dera quem nos dera

 

ter morrido nesse dia.

 

(David Mourão-Ferreira)


publicado por Lígia Laginha às 09:36

12
Set 11

 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

 

(Florbela Espanca)


publicado por Lígia Laginha às 09:43

09
Set 11

                                           

 

                                               A Mário de Sá-Carneiro

 

Quando eu morrer soltem gargalhadas

E batam palmas sem parar.

Que se façam os sinos tocar

Mas em desconexas badaladas.

 

Que se contem anedotas apimentadas

E se faça chacota do meu ar.

Sobre o caixão ponham licor para eu tomar

E algumas mortalhas para serem fumadas.

 

Quando eu morrer digam nomes ordinários

E façam os outros de otários

Rebolando no chão sempre a rir.

 

Quando eu morrer rebentem balões

Dêem pinotes e trambolhões

E fiquem com nódoas negras de tanto cair.

 

(Lígia, 24 de Abril 2009)


 

publicado por Lígia Laginha às 14:00
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Todo o livre pensamento

Gera a repulsa da censura

E abre uma insanável fissura

No sistema bolorento.

 

Só quem não escuta a voz do vento

Perde de Homem livre a postura

Sujeitando-se à impiedosa clausura

Do preconceito poeirento.

 

Quem não ousa contrariar a rota seguida

É albergado pelos ditos senhores da vida

Mas cria dentro de si mesmo uma prisão.

 

Já o espírito que teima em ser independente

É contrário ao retrógrado prepotente

Clamando sempre pelos alvores da libertação. 

 

(Lígia, 20 de Abril de 2009)


publicado por Lígia Laginha às 13:56

 

 

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

 

(Antero de Quental)

 

publicado por Lígia Laginha às 11:40

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